Enquanto Esperava

Enquanto esperava

Três jovens moças bailaram pela calçada
Um rapaz engravatado declamou versos de amor
Duas senhoras gordinhas passaram tomando chá

Um dragão e um unicórnio discutiram dança
Uma tempestade cortejou o grande salgueiro
E dez mil estrelas cairam sobre a terra

Mas nada disso vi e ouvi
Enquanto esperava

E a vida passou diante de mim

Cruz ao Sul

Se eu for fazer um conto/poema pra cada música que escuto, vou ter material suficiente para uns três livros. Southern Cross, 403 Forbiddena.

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Enquanto houver ainda uma estrela no céu,
   Lutaremos.
Enquanto houver ainda um indivíduo de pé,
   Insistiremos.
Enquanto houver ainda um obstáculo a frente,
   Avançaremos.

Enquanto houver ainda algo justo a se defender,
   Cantaremos.

E nossa canção atingirá o mais alto dos sete céus,
   Ecoando por toda a cruz do Sul.

E quanto ao título…

Escrito na madrugada de 03/10/2012

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A arte é a expressão pela qual meu corpo segue a cadência de seu ritmo, e minha alma acompanha, serenada pelos movimentos de minha dança. Dança, que pode ser parada e imóvel, para que os espíritos pulem de alegria enquanto o corpo físico faz papel de totem para a festa. Dança, que pode ser suave e sutil, se expressão em cada momento do meu rosto, em cada ouvir dos meus braços, em cada luzir de meu tronco, em cada fluir de meu corpo.

A arte é a expressão pela qual meu corpo segue a cadência do meu ritmo, e se expressa como folha em brasa, resistindo ao último esforço do calor por queimar sua cerne negra, como poesia que sem sentido sentir, se faz senzala por abrir e dia de lua cheia ao redor da mansa. Mansa maré ou dança, como se faz expressar, de que no lugar onde se faz a canção, se tecem também os fios da memória humana, fios dourados com o tanto que se cumula neles. Cumula, nimbus e cantos, arcanjos que dançam nos céus e seguem o luzir da manhã.

Finalmente, a arte é a expressão pela qual meu corpo segue a cadência do nosso ritmo, esperança surgindo durante a manhã, universo na barriga, ventre em gestação de nosso amor sutil e esperançoso. Esperançoso, porque deseja ser mais que desejo, deseja ser mais que antecipação, deseja ser mais que real. E o amor se torna fantasia, e o desejo, fugaz. E os braços se apertam, os abraços se envolvem, e tudo é belo nessa orgia que não é feita por dois homens que se amam, nem sequer por duas mulheres que se querem, mas sim, por dois indivíduos cuja noção de bom senso já foi por água a baixo, e querem mais se ver nus na cama, ou seja lá onde sua disposição lhes permitir dançar.

E quanto ao título… Bem. Algumas coisas dispensam comentários.

Boa noite, meus amores.

Noite de Lua Nova

Caem as estrelas, ao som do tambor.

Uma a uma.

E sobre as águas elas dançam
de mãos dadas, sem pressa.

Enquanto o céu se desfaz em branco.

Uma a uma.

Os chifres acordam os seres da selva
que abrem passagem para as dançarinas.

Pintando as folhas alvas.

Uma a uma.

Elas correm pelos troncos,
elas colhem as flores.

Chamando a Lua a terra, elas cantam.

Uma a uma.

Então ela desce, banhada em branco,
e dança, até a alvorada raiar.

E elas voltam para o céu.

Uma a uma.

Até que não há mais nenhuma em terra,
e o sonho se desfaz.

Um a um.

Fragmentos Literários – O Corvo

O CORVO 

        Edgar Allan Poe

Numa meia-noite agreste, quando eu lia, lento e triste,

Vagos, curiosos tomos de ciências ancestrais,
E já quase adormecia, ouvi o que parecia
O som de algúem que batia levemente a meus umbrais.
"Uma visita", eu me disse, "está batendo a meus umbrais.

      É só isto, e nada mais."

Ah, que bem disso me lembro! Era no frio dezembro,
E o fogo, morrendo negro, urdia sombras desiguais.
Como eu qu’ria a madrugada, toda a noite aos livros dada
P’ra esquecer (em vão!) a amada, hoje entre hostes celestiais –
Essa cujo nome sabem as hostes celestiais,

      Mas sem nome aqui jamais!

Como, a tremer frio e frouxo, cada reposteiro roxo
Me incutia, urdia estranhos terrores nunca antes tais!
Mas, a mim mesmo infundido força, eu ia repetindo,
"É uma visita pedindo entrada aqui em meus umbrais;
Uma visita tardia pede entrada em meus umbrais.

      É só isto, e nada mais".

E, mais forte num instante, já nem tardo ou hesitante,
"Senhor", eu disse, "ou senhora, decerto me desculpais;
Mas eu ia adormecendo, quando viestes batendo,
Tão levemente batendo, batendo por meus umbrais,
Que mal ouvi…" E abri largos, franqueando-os, meus umbrais.

      Noite, noite e nada mais.

A treva enorme fitando, fiquei perdido receando,
Dúbio e tais sonhos sonhando que os ninguém sonhou iguais.
Mas a noite era infinita, a paz profunda e maldita,
E a única palavra dita foi um nome cheio de ais –
Eu o disse, o nome dela, e o eco disse aos meus ais.

      Isso só e nada mais.

Para dentro então volvendo, toda a alma em mim ardendo,
Não tardou que ouvisse novo som batendo mais e mais.
"Por certo", disse eu, "aquela bulha é na minha janela.
Vamos ver o que está nela, e o que são estes sinais."
Meu coração se distraía pesquisando estes sinais.

      "É o vento, e nada mais."

Abri então a vidraça, e eis que, com muita negaça,
Entrou grave e nobre um corvo dos bons tempos ancestrais.
Não fez nenhum cumprimento, não parou nem um momento,
Mas com ar solene e lento pousou sobre os meus umbrais,
Num alvo busto de Atena que há por sobre meus umbrais,

      Foi, pousou, e nada mais.

E esta ave estranha e escura fez sorrir minha amargura
Com o solene decoro de seus ares rituais.
"Tens o aspecto tosquiado", disse eu, "mas de nobre e ousado,
Ó velho corvo emigrado lá das trevas infernais!
Dize-me qual o teu nome lá nas trevas infernais."

      Disse o corvo, "Nunca mais".

Pasmei de ouvir este raro pássaro falar tão claro,
Inda que pouco sentido tivessem palavras tais.
Mas deve ser concedido que ninguém terá havido
Que uma ave tenha tido pousada nos meus umbrais,
Ave ou bicho sobre o busto que há por sobre seus umbrais,

      Com o nome "Nunca mais".

Mas o corvo, sobre o busto, nada mais dissera, augusto,
Que essa frase, qual se nela a alma lhe ficasse em ais.
Nem mais voz nem movimento fez, e eu, em meu pensamento
Perdido, murmurei lento, "Amigo, sonhos – mortais
Todos – todos já se foram. Amanhã também te vais".

      Disse o corvo, "Nunca mais".

A alma súbito movida por frase tão bem cabida,
"Por certo", disse eu, "são estas vozes usuais,
Aprendeu-as de algum dono, que a desgraça e o abandono
Seguiram até que o entono da alma se quebrou em ais,
E o bordão de desesp’rança de seu canto cheio de ais

      Era este "Nunca mais".

Mas, fazendo inda a ave escura sorrir a minha amargura,
Sentei-me defronte dela, do alvo busto e meus umbrais;
E, enterrado na cadeira, pensei de muita maneira
Que qu’ria esta ave agoureia dos maus tempos ancestrais,
Esta ave negra e agoureira dos maus tempos ancestrais,

      Com aquele "Nunca mais".

Comigo isto discorrendo, mas nem sílaba dizendo
À ave que na minha alma cravava os olhos fatais,
Isto e mais ia cismando, a cabeça reclinando
No veludo onde a luz punha vagas sobras desiguais,
Naquele veludo onde ela, entre as sobras desiguais,

      Reclinar-se-á nunca mais!

Fez-se então o ar mais denso, como cheio dum incenso
Que anjos dessem, cujos leves passos soam musicais.
"Maldito!", a mim disse, "deu-te Deus, por anjos concedeu-te
O esquecimento; valeu-te. Toma-o, esquece, com teus ais,
O nome da que não esqueces, e que faz esses teus ais!"

      Disse o corvo, "Nunca mais".

"Profeta", disse eu, "profeta – ou demônio ou ave preta!
Fosse diabo ou tempestade quem te trouxe a meus umbrais,
A este luto e este degredo, a esta noite e este segredo,
A esta casa de ância e medo, dize a esta alma a quem atrais
Se há um bálsamo longínquo para esta alma a quem atrais!

      Disse o corvo, "Nunca mais".

"Profeta", disse eu, "profeta – ou demônio ou ave preta!
Pelo Deus ante quem ambos somos fracos e mortais.
Dize a esta alma entristecida se no Éden de outra vida
Verá essa hoje perdida entre hostes celestiais,
Essa cujo nome sabem as hostes celestiais!"

      Disse o corvo, "Nunca mais".

"Que esse grito nos aparte, ave ou diabo!", eu disse. "Parte!
Torna á noite e à tempestade! Torna às trevas infernais!
Não deixes pena que ateste a mentira que disseste!
Minha solidão me reste! Tira-te de meus umbrais!
Tira o vulto de meu peito e a sombra de meus umbrais!"

      Disse o corvo, "Nunca mais".

E o corvo, na noite infinda, está ainda, está ainda
No alvo busto de Atena que há por sobre os meus umbrais.
Seu olhar tem a medonha cor de um demônio que sonha,
E a luz lança-lhe a tristonha sombra no chão há mais e mais,

      Libertar-se-á… nunca mais!

Traduzido por Fernando Pessoa

Marcha de Caça do Guepardo

Um, dois, três.

Passo macio;
Ouvido atento;
Corpo deitado.

Três, dois, um.

Mente vazia;
Olhos atentos;
Garras guardadas.

Um, dois, três

Passo macio;
Olho seguindo;
O véu da caçada.

Três, dois, um.

Mente vazia;
Corpo tenso;
Bote armado.

Um, dois…

Passo tranquilo
Acosso a presa
Relaxo a mente

Um dois três

Sigo a trilha
Movo depressa
Sem perder tempo

Três dois um

Separo a caça
Pulo das sombras
Sigo a presa

Um dois três

Corro sem pressa
Mordo a perna
Assisto a queda

Três dois um

Pulo pescoço
Lasco a pele
Escorre o sangue

Um dois três

Trago a comida
Sirvo a mesa
Divido a presa.

Três, dois, um.

Barriga cheia,
Corpo aceso;
Agora mais um.