Um Dia Normal

Ele acordou naquilo se que seria mais um dia normal. E ele tinha certeza disso: Tinha acordado duas horas mais tarde do que tinha se comprometido a acordar, em um momento em que todos já tinham tomado o café; Seu pescoço doía, e ele não acreditava que iria ter paciência para sair e se exercitar. Com um resmungo, se virou na cama, culpando o Sol por brilhar tão forte, e estendeu o braço para o computador; Nem pensou muito antes de abrir a internet, que tinha lhe retornado a pouco, e começar a navegar sem muito sentido.

Seus hábitos de leitura se reduziram com o tempo a um ritual tosco e sem propósito, que se compunha de abrir suas redes ("agora reduzidas a uma rede só", ele orgulhosamente refletia) e seu leitor de feeds, identificar os posts político-motivacionais do dia, abrir uma ou outra história em quadrinhos, e passar as próximas duas horas repetindo o processo, ocasionalmente conversando com alguém sobre como o dia estava ficando tedioso.

De vez em quando, quando por alguma conjunção astral ele tinha a coragem de sair dos sites que sempre visitava, encontrava textos que variavam entre a esquerda agradável, que não apoiava, mas era simpatizador; e a direita retrógrada, radical, cujas palavras feriam sua sensibilidade puritana de minoria. Ainda mais raramente, ele encontrava versos e prosas sensíveis e pessoais, das quais ele fugia rapidamente, sempre temeroso do tremor que elas causavam em seu peito, e das mudanças que ele pressentia surgirem logo ali a esquina, repentinamente invocadas pelo súbito influxo de sentimento e realidade que ele, obstinadamente, buscava evitar enquanto caminhava pelas ruas podres e mal educadas de sua cidade, se satisfazendo ao dar bom dia para os cobradores mas incapaz de investir uma ou duas notas em um pedaço de pão para dar a alguém com necessidades maiores que as dele.

E então, ele se levantava da cama, tão certo quanto o movimento das placas abissais, e ia a mesa (ainda posta por sua causa), comia algo que relutantemente aceitava que lhe preparassem, e voltava para a cama, enquanto os pratos ficavam para depois. Mais duas horas de seu rito informacional e engajado na internet ("porque nunca se sabe quando notícia importante pode aparecer", ele se convencia), perfurado de forma dolorosa pela súbita lembrança de um amor não resolvido, e potencialmente ainda vivo, que ele não tinha coragem de investir.

Mas como um indivíduo excelentemente aclimatado as condições, ele tinha seus métodos de defesa: rapidamente buscava todas as imagens pornográficas que lhe pudessem lembrar de fetiches que não envolviam a pessoa amada, e se masturbava ferventemente, torcendo para que o tremor na coluna não fosse mais do que só isso, um tremor (muito embora ele tivesse a distante certeza de que se tratava de algo muito mais sério, certeza que ele refugava como superstição barata). Quando isso não era suficiente, ele buscava as imagens que mais lhe lembravam de seu passado, imagens que ele passou a amar através de outrem, imagens que lhe feriam a alma, e lhe levavam ao limiar de um choro que estava preso na garganta a anos, e gozava sem sequer se permitir ereção; um gozo alimentado pelo medo e desespero de alguém que já se abandonou, mas ainda não sabia.

Hora do almoço, e a história se repete. A pilha de pratos na pia jamais fica alta demais, e ainda assim ele raciocina que não é tanto que ele tenha que se preocupar, nem tão pouco que se torne uma ofensa retirar esse prazer daqueles que já o fazem por obrigação.

E ele guarda o computador na mochila, e ruma a algum lugar qualquer, onde, com seus amigos, ele se alija da realidade por algumas horas, alternando a rotina social-virtual com a rotina social-real, a segunda mais pseudo do que qualquer outra coisa, dada a ausência de profundidade em qualquer coisa que não seja o jogo da semana ou o ídolo do entretenimento mais recente.

A profundidade é algo que o assusta de maneira tamanha que toda vez que ele pensa nela ele a afasta como se afasta cobra; ele teme que, se entrar nos debates que tanto o incomodam, irá longe demais e isso nunca é bom. Seus hábitos discursivos, um dia afiados e coerentes, se reduziram a uma papagaiada confusa e dispersiva, vitoriosa de diversos embates pela simples perplexidade que causa; e que ainda deixa ele meio perturbado, mas que não lhe preocupa o suficiente para que mude.

Sua falta de conteúdo só se complementa com seu medo de ocupar os espaços que lhe são colocados a disposição, e ele se resume a ser inconveniente e assustar os outros com sua incrível, porém mal direcionada, energia, que possivelmente cativaria muito mais do que hoje cativa pela simples presença se fosse usada de forma produtiva.

E então, satisfeito em desperdiçar a tarde jogando conversa e algumas coisas mais fora, ele volta para casa, e depois de jantar, deitado na cama, com o computador a sua frente, ele reflete em quão rápido passou o dia, e cheio pela culpa gerada por sua "falta de produtividade", ele escreve ferventemente textos profundos em palavras porém rasos em emoção, textos que lhe fazem lembrar do homem que se afoga: somente um pedaço está para cima, o desespero está no fundo, como um iceberg, só que gritando por auxílio e incapaz de perceber que se conseguisse coordenar as pernas, possivelmente iria conseguir reverter a situação com até mesmo facilidade.

E ele dorme, e tem um sono sem sonhos, um sono quente e sem descanso.

Ele sente bastante falta de seus sonhos, quando acordado. Mas não é capaz para materializar nem mesmo o mais leve de seus desejos.

E ele passa mais um dia, invisível para si e insignificante para os outros, para no dia seguinte começar tudo de novo.

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