Galea

Capítulo I – Prólogo

Chove. Não uma chuva fina, de verão. Uma chuva pesada, densa, com personalidade. É o tipo de chuva que enche lagos, derruba árvores, e faz as pessoas se perguntarem por que a natureza não lhes abençoou com a capacidade de hibernar.

Bem, não todas.

Os Ursos, por exemplo. Eles até hoje se perguntam por que passar três meses no ano sonolentos.

*****

Existem diversos tipos de estórias. Algumas possuem um sabor pesado, e devem ser lidas com cautela. Outras, de tão leves, não alimentam o leitor, que segue buscando seu sustento em outras letras. Certas estórias trazem consigo sentimentos profundos, areias distantes e países longínquos. A maior parte delas fala do que as pessoas fazem, ou deixam de fazer.

Esta não. Esta fala das pessoas.

Não pessoas humanas, como eu e você. Outras pessoas, em outro lugar, pessoas que vivem de outras maneiras. Pessoas reais. Alguns de vocês irão dizer: “Mas que ultraje! Ele escreve fantasia, e quer nos convencer de que isto é real!”

Mas lhes digo, amigos. Nada do que lerão aqui é mentira. A verdadeira fantasia do homem é acreditar que só aquilo que ele vê existe, e mais nada. Todos os fatos aqui narrados realmente aconteceram, e cabe a eu revelá-los, tal qual o Sol revela a imensidão da luz diante das gotas d’água.

É claro que, às vezes, acontece uma invençãozinha. Mas aí, caros leitores, é um direito do autor, e isso não se discute.

*****

As gotas de chuva atingiam o telhado de madeira como pedras, gerando o equivalente sonoro de uma orquestra de percussão. É claro que, se você estivesse do lado de fora da pequena taverna, você teria mais com que se preocupar. Coisas como Que Frio Terrível, Onde Me Escondo, e Meu Deus, Porque Não Abrem Essa Porta!

A verdade é que a pequena taverna estava de folga. Após um encontro acidental com uma vidente fracassada, seus habitantes descobriram que em breve seriam visitados por um príncipe sem trono, levados em uma longa aventura atrás de seres que não existiam, e que a chuva que ia atingir a região ia ser terrível. É claro que eles acreditaram somente na última previsão.

Portanto, naquele momento, enquanto o seu terceiro residente dormia, os dois moradores mais jovens da hospedaria arrumavam o saguão de hospedes. O longo cômodo possuía um balcão na parede oposta à porta, e tinha uma escadaria em um dos cantos, levando aos quartos. Em suas paredes, reverberava um belíssimo aleggro, de autoria da Mãe Natureza, o que não melhorava muito a aparência sombria do salão, iluminado por algumas poucas velas.

A mais velha dos dois, uma bela raposa, varria o chão de madeira do salão. Sua concentração estava completamente voltada para baixo, e seus longos cabelos ruivos cobriam sua face. A maneira implacável com que castigava o chão parecia sugerir que ela estava irada.

Do outro lado do cômodo, um morcego jovialmente desafinava um assobio enquanto empilhava mesas junto à parede. Ele parecia visivelmente agradado com algo, e sua felicidade vibrou em sua voz quando ele se virou para a companheira.

– E então, mana, está satisfeita agora? – Sua voz surpreendentemente grave sobrepôs o som da chuva, e reverberou no amplo salão.

Durante alguns instantes, tudo que se ouvia era o som da vassoura no chão, e a chuva que, de alguma maneira, parecia estar pior do que antes da pergunta.

Com um belíssimo meneio, ela jogou os cabelos para trás, e abriu um sorriso que faria correr deuses e demônios. – Ora, meu querido, por que não estaria?

O morcego não se abalou. “Uma das vantagens de ser cego”, ele pensou “é não ter que ver esse tipo de olhar.” Ele sabia, devido a um sofisticado sistema de eco-localização, que ela estava olhando para ele, tanto quanto podia sentir em sua voz quão irada ela estava. E ele estava adorando isso – Não sei… Me parece daqui que você está tentando tirar o assoalho do lugar, ao invés de limpá-lo.

Respirando fundo, a lupina parou de varrer, e se apoiou na vassoura, quebrando algumas cerdas da escova – Belíssima observação. Fico imaginando quem é o responsável por isso, não é? – Sua mão livre foi parar na cintura, onde um cordão trançado ajustava um belo vestido azul a seu corpo.

– Hm. Guardando ressentimentos, mana? – O jovem morcego terminou de empilhar as mesas, e, ainda sem virar a face para sua interlocutora, caminhou em direção ao balcão que estava entre eles. – Eu não esperava isso de você. – Com um leve bater de asas, ele se lançou por cima do balcão, e enquanto se virava para encará-la, sentou-se nele. – E, não acho que deveria ter ficado assim. Imagina só, se o vô soubesse que você me levou também…

Antes que ele pudesse terminar a frase, ela pulou. Com uma rapidez indescritível, ela se jogou na direção do balcão, chegando antes mesmo que a vassoura largada chegasse ao chão. Seu vestido ainda esvoaçava quanto ela pegou o mamífero pelo pescoço e o ergueu sobre o balcão. Sua voz nada mais era que um sibilo, e seus olhos estavam em chamas. – Você não deveria provocar, maninho. Senão, lhe faço limpar o chão com a língua! – Ela aproximou seu rosto do dele, falando cada vez mais baixo. – Ainda lhe faço pagar pelo que fez, pequeno, marque minhas palavras!

– Ah… – O morcego não esboçou reação. Ele sabia que não corria perigo. – Mas, mana… – Ele abriu um leve sorriso – Você não acha que…

Naquele instante, um estrondo sacudiu o salão. Enquanto os jovens tentavam se recuperar do choque, um relâmpago iluminou o cômodo pela porta agora aberta, enquanto um vulto molhado entrava lentamente. Em sua mão, ele carregava um longo embrulho envolto em couro, e sua pesada túnica cobria completamente suas feições enquanto ele adentrava a sala.

– Ah! – A jovem raposa, sem perder um instante, deixou seu atônito amigo no balcão, e limpando as mãos no vestido, caminhou a passos largos para a entrada – Senhor, boa tarde… – Sua mente zumbia de perguntas enquanto ela abria um largo sorriso ensaiado, fruto de anos de prática – Como pode ver, nós não estamos abertos, então, se puder se retirar… – Sua voz foi sumindo enquanto ela se aproximava dele – Senhor?

O vulto, já curvado sob seus trajes, balbuciou coisas inteligíveis, e com um longo suspiro, caiu no chão. Enquanto a jovem raposa sufocava um grito, algo escuro e viscoso escorreu por dentro das roupas para o chão, manchando a madeira em tons escarlates.

Dessa vez, o morcego foi mais rápido. Correndo em direção às escadas, ele respirou o mais fundo que pode antes de explodir. – Vô, corre aqui em baixo! Tem alguém morrendo aqui!

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