Enquanto Esperava

Enquanto esperava

Três jovens moças bailaram pela calçada
Um rapaz engravatado declamou versos de amor
Duas senhoras gordinhas passaram tomando chá

Um dragão e um unicórnio discutiram dança
Uma tempestade cortejou o grande salgueiro
E dez mil estrelas cairam sobre a terra

Mas nada disso vi e ouvi
Enquanto esperava

E a vida passou diante de mim

Um Dia Normal

Ele acordou naquilo se que seria mais um dia normal. E ele tinha certeza disso: Tinha acordado duas horas mais tarde do que tinha se comprometido a acordar, em um momento em que todos já tinham tomado o café; Seu pescoço doía, e ele não acreditava que iria ter paciência para sair e se exercitar. Com um resmungo, se virou na cama, culpando o Sol por brilhar tão forte, e estendeu o braço para o computador; Nem pensou muito antes de abrir a internet, que tinha lhe retornado a pouco, e começar a navegar sem muito sentido.

Seus hábitos de leitura se reduziram com o tempo a um ritual tosco e sem propósito, que se compunha de abrir suas redes ("agora reduzidas a uma rede só", ele orgulhosamente refletia) e seu leitor de feeds, identificar os posts político-motivacionais do dia, abrir uma ou outra história em quadrinhos, e passar as próximas duas horas repetindo o processo, ocasionalmente conversando com alguém sobre como o dia estava ficando tedioso.

De vez em quando, quando por alguma conjunção astral ele tinha a coragem de sair dos sites que sempre visitava, encontrava textos que variavam entre a esquerda agradável, que não apoiava, mas era simpatizador; e a direita retrógrada, radical, cujas palavras feriam sua sensibilidade puritana de minoria. Ainda mais raramente, ele encontrava versos e prosas sensíveis e pessoais, das quais ele fugia rapidamente, sempre temeroso do tremor que elas causavam em seu peito, e das mudanças que ele pressentia surgirem logo ali a esquina, repentinamente invocadas pelo súbito influxo de sentimento e realidade que ele, obstinadamente, buscava evitar enquanto caminhava pelas ruas podres e mal educadas de sua cidade, se satisfazendo ao dar bom dia para os cobradores mas incapaz de investir uma ou duas notas em um pedaço de pão para dar a alguém com necessidades maiores que as dele.

E então, ele se levantava da cama, tão certo quanto o movimento das placas abissais, e ia a mesa (ainda posta por sua causa), comia algo que relutantemente aceitava que lhe preparassem, e voltava para a cama, enquanto os pratos ficavam para depois. Mais duas horas de seu rito informacional e engajado na internet ("porque nunca se sabe quando notícia importante pode aparecer", ele se convencia), perfurado de forma dolorosa pela súbita lembrança de um amor não resolvido, e potencialmente ainda vivo, que ele não tinha coragem de investir.

Mas como um indivíduo excelentemente aclimatado as condições, ele tinha seus métodos de defesa: rapidamente buscava todas as imagens pornográficas que lhe pudessem lembrar de fetiches que não envolviam a pessoa amada, e se masturbava ferventemente, torcendo para que o tremor na coluna não fosse mais do que só isso, um tremor (muito embora ele tivesse a distante certeza de que se tratava de algo muito mais sério, certeza que ele refugava como superstição barata). Quando isso não era suficiente, ele buscava as imagens que mais lhe lembravam de seu passado, imagens que ele passou a amar através de outrem, imagens que lhe feriam a alma, e lhe levavam ao limiar de um choro que estava preso na garganta a anos, e gozava sem sequer se permitir ereção; um gozo alimentado pelo medo e desespero de alguém que já se abandonou, mas ainda não sabia.

Hora do almoço, e a história se repete. A pilha de pratos na pia jamais fica alta demais, e ainda assim ele raciocina que não é tanto que ele tenha que se preocupar, nem tão pouco que se torne uma ofensa retirar esse prazer daqueles que já o fazem por obrigação.

E ele guarda o computador na mochila, e ruma a algum lugar qualquer, onde, com seus amigos, ele se alija da realidade por algumas horas, alternando a rotina social-virtual com a rotina social-real, a segunda mais pseudo do que qualquer outra coisa, dada a ausência de profundidade em qualquer coisa que não seja o jogo da semana ou o ídolo do entretenimento mais recente.

A profundidade é algo que o assusta de maneira tamanha que toda vez que ele pensa nela ele a afasta como se afasta cobra; ele teme que, se entrar nos debates que tanto o incomodam, irá longe demais e isso nunca é bom. Seus hábitos discursivos, um dia afiados e coerentes, se reduziram a uma papagaiada confusa e dispersiva, vitoriosa de diversos embates pela simples perplexidade que causa; e que ainda deixa ele meio perturbado, mas que não lhe preocupa o suficiente para que mude.

Sua falta de conteúdo só se complementa com seu medo de ocupar os espaços que lhe são colocados a disposição, e ele se resume a ser inconveniente e assustar os outros com sua incrível, porém mal direcionada, energia, que possivelmente cativaria muito mais do que hoje cativa pela simples presença se fosse usada de forma produtiva.

E então, satisfeito em desperdiçar a tarde jogando conversa e algumas coisas mais fora, ele volta para casa, e depois de jantar, deitado na cama, com o computador a sua frente, ele reflete em quão rápido passou o dia, e cheio pela culpa gerada por sua "falta de produtividade", ele escreve ferventemente textos profundos em palavras porém rasos em emoção, textos que lhe fazem lembrar do homem que se afoga: somente um pedaço está para cima, o desespero está no fundo, como um iceberg, só que gritando por auxílio e incapaz de perceber que se conseguisse coordenar as pernas, possivelmente iria conseguir reverter a situação com até mesmo facilidade.

E ele dorme, e tem um sono sem sonhos, um sono quente e sem descanso.

Ele sente bastante falta de seus sonhos, quando acordado. Mas não é capaz para materializar nem mesmo o mais leve de seus desejos.

E ele passa mais um dia, invisível para si e insignificante para os outros, para no dia seguinte começar tudo de novo.

Cruz ao Sul

Se eu for fazer um conto/poema pra cada música que escuto, vou ter material suficiente para uns três livros. Southern Cross, 403 Forbiddena.

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Enquanto houver ainda uma estrela no céu,
   Lutaremos.
Enquanto houver ainda um indivíduo de pé,
   Insistiremos.
Enquanto houver ainda um obstáculo a frente,
   Avançaremos.

Enquanto houver ainda algo justo a se defender,
   Cantaremos.

E nossa canção atingirá o mais alto dos sete céus,
   Ecoando por toda a cruz do Sul.

Juntos?

Inspirado pela música Fight Together. Tou lendo One Piece demais.

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Ele se ergueu da areia, a primeira luz da manhã banhando em ouro o mar enquanto sua companhia lhe visava os olhos, um sorriso maroto no rosto. Com um suspiro, ele passou as mãos pelos joelhos arranhados, e limpou a areia na perna e barriga. Seus braços estavam relaxados quando ele alongou de leve a coluna para trás, e foram jogados para cima no instante seguinte com um grito.

“De novo, então?” Sua companhia colocou o pequeno bastão contra o ombro, o sorriso se expandindo em sua fronte.

Ele suspirou enquanto colocava o seu bastão a sua frente, segurando-o com duas mãos antes de dobrar as pernas, como se pronto para correr. Ele olhou para a frente, e em seus olhos havia somente determinação misturada com euforia.

Um instante se passou somente com o som da maré batendo na praia, e então…

“Sim… Juntos?”

E quanto ao título…

Escrito na madrugada de 03/10/2012

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A arte é a expressão pela qual meu corpo segue a cadência de seu ritmo, e minha alma acompanha, serenada pelos movimentos de minha dança. Dança, que pode ser parada e imóvel, para que os espíritos pulem de alegria enquanto o corpo físico faz papel de totem para a festa. Dança, que pode ser suave e sutil, se expressão em cada momento do meu rosto, em cada ouvir dos meus braços, em cada luzir de meu tronco, em cada fluir de meu corpo.

A arte é a expressão pela qual meu corpo segue a cadência do meu ritmo, e se expressa como folha em brasa, resistindo ao último esforço do calor por queimar sua cerne negra, como poesia que sem sentido sentir, se faz senzala por abrir e dia de lua cheia ao redor da mansa. Mansa maré ou dança, como se faz expressar, de que no lugar onde se faz a canção, se tecem também os fios da memória humana, fios dourados com o tanto que se cumula neles. Cumula, nimbus e cantos, arcanjos que dançam nos céus e seguem o luzir da manhã.

Finalmente, a arte é a expressão pela qual meu corpo segue a cadência do nosso ritmo, esperança surgindo durante a manhã, universo na barriga, ventre em gestação de nosso amor sutil e esperançoso. Esperançoso, porque deseja ser mais que desejo, deseja ser mais que antecipação, deseja ser mais que real. E o amor se torna fantasia, e o desejo, fugaz. E os braços se apertam, os abraços se envolvem, e tudo é belo nessa orgia que não é feita por dois homens que se amam, nem sequer por duas mulheres que se querem, mas sim, por dois indivíduos cuja noção de bom senso já foi por água a baixo, e querem mais se ver nus na cama, ou seja lá onde sua disposição lhes permitir dançar.

E quanto ao título… Bem. Algumas coisas dispensam comentários.

Boa noite, meus amores.

Noite de Lua Nova

Caem as estrelas, ao som do tambor.

Uma a uma.

E sobre as águas elas dançam
de mãos dadas, sem pressa.

Enquanto o céu se desfaz em branco.

Uma a uma.

Os chifres acordam os seres da selva
que abrem passagem para as dançarinas.

Pintando as folhas alvas.

Uma a uma.

Elas correm pelos troncos,
elas colhem as flores.

Chamando a Lua a terra, elas cantam.

Uma a uma.

Então ela desce, banhada em branco,
e dança, até a alvorada raiar.

E elas voltam para o céu.

Uma a uma.

Até que não há mais nenhuma em terra,
e o sonho se desfaz.

Um a um.

Fragmentos Literários – O Corvo

O CORVO 

        Edgar Allan Poe

Numa meia-noite agreste, quando eu lia, lento e triste,

Vagos, curiosos tomos de ciências ancestrais,
E já quase adormecia, ouvi o que parecia
O som de algúem que batia levemente a meus umbrais.
"Uma visita", eu me disse, "está batendo a meus umbrais.

      É só isto, e nada mais."

Ah, que bem disso me lembro! Era no frio dezembro,
E o fogo, morrendo negro, urdia sombras desiguais.
Como eu qu’ria a madrugada, toda a noite aos livros dada
P’ra esquecer (em vão!) a amada, hoje entre hostes celestiais –
Essa cujo nome sabem as hostes celestiais,

      Mas sem nome aqui jamais!

Como, a tremer frio e frouxo, cada reposteiro roxo
Me incutia, urdia estranhos terrores nunca antes tais!
Mas, a mim mesmo infundido força, eu ia repetindo,
"É uma visita pedindo entrada aqui em meus umbrais;
Uma visita tardia pede entrada em meus umbrais.

      É só isto, e nada mais".

E, mais forte num instante, já nem tardo ou hesitante,
"Senhor", eu disse, "ou senhora, decerto me desculpais;
Mas eu ia adormecendo, quando viestes batendo,
Tão levemente batendo, batendo por meus umbrais,
Que mal ouvi…" E abri largos, franqueando-os, meus umbrais.

      Noite, noite e nada mais.

A treva enorme fitando, fiquei perdido receando,
Dúbio e tais sonhos sonhando que os ninguém sonhou iguais.
Mas a noite era infinita, a paz profunda e maldita,
E a única palavra dita foi um nome cheio de ais –
Eu o disse, o nome dela, e o eco disse aos meus ais.

      Isso só e nada mais.

Para dentro então volvendo, toda a alma em mim ardendo,
Não tardou que ouvisse novo som batendo mais e mais.
"Por certo", disse eu, "aquela bulha é na minha janela.
Vamos ver o que está nela, e o que são estes sinais."
Meu coração se distraía pesquisando estes sinais.

      "É o vento, e nada mais."

Abri então a vidraça, e eis que, com muita negaça,
Entrou grave e nobre um corvo dos bons tempos ancestrais.
Não fez nenhum cumprimento, não parou nem um momento,
Mas com ar solene e lento pousou sobre os meus umbrais,
Num alvo busto de Atena que há por sobre meus umbrais,

      Foi, pousou, e nada mais.

E esta ave estranha e escura fez sorrir minha amargura
Com o solene decoro de seus ares rituais.
"Tens o aspecto tosquiado", disse eu, "mas de nobre e ousado,
Ó velho corvo emigrado lá das trevas infernais!
Dize-me qual o teu nome lá nas trevas infernais."

      Disse o corvo, "Nunca mais".

Pasmei de ouvir este raro pássaro falar tão claro,
Inda que pouco sentido tivessem palavras tais.
Mas deve ser concedido que ninguém terá havido
Que uma ave tenha tido pousada nos meus umbrais,
Ave ou bicho sobre o busto que há por sobre seus umbrais,

      Com o nome "Nunca mais".

Mas o corvo, sobre o busto, nada mais dissera, augusto,
Que essa frase, qual se nela a alma lhe ficasse em ais.
Nem mais voz nem movimento fez, e eu, em meu pensamento
Perdido, murmurei lento, "Amigo, sonhos – mortais
Todos – todos já se foram. Amanhã também te vais".

      Disse o corvo, "Nunca mais".

A alma súbito movida por frase tão bem cabida,
"Por certo", disse eu, "são estas vozes usuais,
Aprendeu-as de algum dono, que a desgraça e o abandono
Seguiram até que o entono da alma se quebrou em ais,
E o bordão de desesp’rança de seu canto cheio de ais

      Era este "Nunca mais".

Mas, fazendo inda a ave escura sorrir a minha amargura,
Sentei-me defronte dela, do alvo busto e meus umbrais;
E, enterrado na cadeira, pensei de muita maneira
Que qu’ria esta ave agoureia dos maus tempos ancestrais,
Esta ave negra e agoureira dos maus tempos ancestrais,

      Com aquele "Nunca mais".

Comigo isto discorrendo, mas nem sílaba dizendo
À ave que na minha alma cravava os olhos fatais,
Isto e mais ia cismando, a cabeça reclinando
No veludo onde a luz punha vagas sobras desiguais,
Naquele veludo onde ela, entre as sobras desiguais,

      Reclinar-se-á nunca mais!

Fez-se então o ar mais denso, como cheio dum incenso
Que anjos dessem, cujos leves passos soam musicais.
"Maldito!", a mim disse, "deu-te Deus, por anjos concedeu-te
O esquecimento; valeu-te. Toma-o, esquece, com teus ais,
O nome da que não esqueces, e que faz esses teus ais!"

      Disse o corvo, "Nunca mais".

"Profeta", disse eu, "profeta – ou demônio ou ave preta!
Fosse diabo ou tempestade quem te trouxe a meus umbrais,
A este luto e este degredo, a esta noite e este segredo,
A esta casa de ância e medo, dize a esta alma a quem atrais
Se há um bálsamo longínquo para esta alma a quem atrais!

      Disse o corvo, "Nunca mais".

"Profeta", disse eu, "profeta – ou demônio ou ave preta!
Pelo Deus ante quem ambos somos fracos e mortais.
Dize a esta alma entristecida se no Éden de outra vida
Verá essa hoje perdida entre hostes celestiais,
Essa cujo nome sabem as hostes celestiais!"

      Disse o corvo, "Nunca mais".

"Que esse grito nos aparte, ave ou diabo!", eu disse. "Parte!
Torna á noite e à tempestade! Torna às trevas infernais!
Não deixes pena que ateste a mentira que disseste!
Minha solidão me reste! Tira-te de meus umbrais!
Tira o vulto de meu peito e a sombra de meus umbrais!"

      Disse o corvo, "Nunca mais".

E o corvo, na noite infinda, está ainda, está ainda
No alvo busto de Atena que há por sobre os meus umbrais.
Seu olhar tem a medonha cor de um demônio que sonha,
E a luz lança-lhe a tristonha sombra no chão há mais e mais,

      Libertar-se-á… nunca mais!

Traduzido por Fernando Pessoa