Eu ia escrever um texto bem pesado, bem terrível, mas a música que eu estou ouvindo não me permite fazer algo tão estúpido.

Cada dia que passa, fica mais difícil de compartilhar meu espaço com as pessoas que amo.

Cada dia que passa, me torno mais consciente de minha fragilidade, e da violência a que nós, homens, mulheres, crianças e idosos, e todos os intermediários entre estes binômios normatizados, somos impostos.

E é importante falar destes intermediários. Destas pessoas que são invisíveis. Transgêneros, Intergêneros, Poligêneros… Indivíduos que gostam de “homens” e de “mulheres”, indivíduos que não precisariam explicar porque gostam de quem gostam, que não teriam que se defender por ser quem são.

E eu sou um deles. Sou homem, sou mulher, e não sou mais nem menos um ou outro. Mesmo que meu corpo seja masculino, mesmo que minha mente seja seja lá o que ela for, me sinto homemulher, me sinto algo que não consigo explicar.

E ser quem sou dói. Dói perceber que, não importa por onde eu vá, as pessoas acreditam que mulheres – que eu – gostam de ser dominadas e, embora ninguém diga isso de cara, estupradas. Dói perceber que, não importa por onde eu vá, as pessoas acreditam que os homens – que eu – não devem ter sentimentos outros que não a raiva e o ódio, e que isso é normal. Dói perceber que, não importa onde eu vá, aquilo que as pessoas percebem de mim é mais importante do que a pessoa que sou. Minha identidade é menos importante do que aquilo que apresento. Que minha imagem está a venda, e minha singularidade é irrelevante.

E ainda assim, não me sinto disposto a desistir de brigar. Brigar por aquilo em que acredito, brigar por aquilo que quero, brigar por aquilo que pode ser.

E ainda assim, não importa quão grande seja a dor que sinto, não me permito odiar aqueles que me odeiam. Não me permito sentir raiva daqueles que sentem raiva de mim. Não me permito violar, de forma ou maneira alguma, aqueles que me violam.

Porque se o fizesse, não seria eu.

Dizem que as pessoas aprendem por exemplo. E cada vez que vejo uma ofensa trocada, uma violação compartilhada, uma piada conjulgada, me lembro que, se eu quiser ver alguma mudança em minha realidade, preciso me tornar o exemplo daquilo que desejo para mim.

E aquilo que desejo para mim é só e puramente amor.

 

E você? Quanto você tem amado recentemente?

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